A Inconfidência Mineira e o sonho interrompido da República
Como uma conspiração de elite contra a Coroa terminou no cadafalso de um alferes
Vila Rica, uma noite de 1788. Na sala de um sobrado com vista para as igrejas barrocas encravadas no morro, um grupo de homens lê em voz baixa panfletos sobre a independência das treze colônias americanas. Entre eles está um alferes de dragões, endividado, que ganha a vida também como dentista improvisado — e que carrega um apelido que a história não vai esquecer: Tiradentes.
O peso do ouro
Minas Gerais, no fim do século XVIII, era a região mais rica e mais vigiada do império português. Um quinto de tudo que se extraía das minas — ouro, depois diamantes — pertencia à Coroa por direito. Quando a produção caía e a arrecadação não fechava a conta, Lisboa recorria à : a cobrança forçada, casa por casa, da diferença que faltava.
Era essa ameaça, iminente em 1788 e 1789, que dava urgência ao que até então era conversa de salão entre magistrados, padres, poetas árcades e oficiais da tropa paga. Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto discutiam Rousseau e Voltaire; olhavam para a Filadélfia como modelo. Tiradentes, sem fortuna nem título acadêmico, era o mais ativo em espalhar a ideia entre a tropa e o povo miúdo.
A traição e a queda
O plano nunca teve um dia marcado nem um exército organizado. Era, sobretudo, uma disposição de ânimo entre homens que se sabiam vigiados. Bastou a denúncia de um dos próprios inconfidentes, Joaquim Silvério dos Reis — endividado com a Coroa e em busca de perdão —, para que a devassa começasse em 1789, antes de qualquer levante acontecer.
O processo se arrastou por três anos. A maioria dos réus, homens de posses e conexões em Lisboa, foi condenada ao degredo em Angola e Moçambique. Só Tiradentes, sem os mesmos padrinhos, pagou com a vida: enforcado e esquartejado na então cidade do Rio de Janeiro em 21 de abril de 1792, seus pedaços expostos ao longo da estrada até Vila Rica como advertência.
Um símbolo maior que a conspiração
A Inconfidência não chegou a ameaçar o domínio português — foi sufocada antes de sair do papel. Mas a imagem do alferes enforcado, o único a pagar sozinho por um plano coletivo, atravessou o século seguinte. A República, proclamada quase cem anos depois, adotaria Tiradentes como mártir fundador, e Ouro Preto — a antiga Vila Rica — se tornaria o lugar de memória de um projeto que, em 1789, ainda não tinha nome de país.

A abdicação de Dom Pedro I e a hora da Regência
Cercado por tropas amotinadas e por uma elite política que já não confiava nele, Dom Pedro I assinou a abdicação em poucas horas. Começava, ali, a Regência — quase uma década de país sem imperador adulto no trono.

O golpe de 1964 e o fim abrupto das reformas de base
João Goulart prometia reformas de base num país dividido pela Guerra Fria. Em 31 de março de 1964, tropas se moveram de Minas Gerais ao Rio; em 2 de abril, o presidente já estava fora do poder.