Brasil Republicano e Transformações Contemporâneas

O golpe de 1964 e o fim abrupto das reformas de base

Em menos de 48 horas, um governo eleito caiu e o Brasil entrou em duas décadas de regime militar

05 de mar. de 20268 min de leituraBrasil

Na noite de 31 de março de 1964, tropas comandadas pelo general Olímpio Mourão Filho deixam Juiz de Fora, em Minas Gerais, rumo ao Rio de Janeiro. Não há um único tiro de resistência organizada. Em menos de dois dias, o presidente João Goulart deixa Brasília, depois Porto Alegre, e finalmente cruza a fronteira para o Uruguai. Um governo eleito havia caído sem que se travasse, de fato, uma guerra.

Reformas de base e uma direita mobilizada

Goulart assumira a presidência em 1961 em condições já frágeis, após a renúncia de Jânio Quadros e uma crise política que só foi contornada com a instituição temporária do parlamentarismo. De volta aos plenos poderes presidenciais a partir de 1963, ele apostou nas chamadas : reforma agrária, reforma urbana, nacionalização de refinarias, ampliação do direito de voto a analfabetos e praças de pré.

Para setores empresariais, militares e parte da classe média urbana, esse programa — anunciado publicamente num comício na Central do Brasil em 13 de março de 1964 — soava como avanço perigoso de um projeto de esquerda, num momento em que a Revolução Cubana de 1959 já havia redesenhado o mapa de alianças da Guerra Fria no continente. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada em São Paulo poucos dias depois, em 19 de março, mobilizou centenas de milhares de pessoas contra o governo.

Uma deposição sem resistência formal

Quando as tropas mineiras se movimentaram, o apoio de outros comandos militares se consolidou rapidamente, e Goulart optou por não convocar resistência armada para evitar uma guerra civil. O Congresso Nacional declarou vaga a presidência em 2 de abril — mesmo com Goulart ainda em território nacional — e o comando militar assumiu o controle político do país.

Em 15 de abril, o general Humberto de Alencar Castelo Branco toma posse como presidente, eleito indiretamente pelo Congresso sob pressão militar. O que a cúpula golpista chamava de intervenção temporária para "restaurar a ordem" se estenderia por vinte e um anos, com atos institucionais que cassariam mandatos, suspenderiam direitos políticos e, a partir de 1968, apertariam ainda mais o cerco sobre a vida civil brasileira.